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Saber pensar – O poder da verdade

Saber pensar IV – O poder da verdade

Artigo de André Soares - 23/04/2011

O consagrado, porém incompreendido, Nelson Rodrigues era muito mais que ousado ao dizer verdades - era corajoso. Pois, Nelson Rodrigues não se contentava apenas em dizê-las, simplesmente. Mais que isso, ele as escancarava ao mundo, jogando-as no rosto das pessoas, para que não se escondessem na hipocrisia e falsidade do mundo em que vivemos. Qualquer pessoa, em sã consciência, não teria a coragem de pensar essas verdades, muito menos dizê-las, como por exemplo: “toda a unanimidade é burra”, ou “toda mulher gosta de apanhar”; só para citar as mais amenas.

Sobre essa última, vale registrar uma passagem de sua biografia em que uma jornalista, ao final de sua entrevista com Nelson Rodrigues, não resistiu e também teve a coragem de perguntá-lo sobre essa afirmação “caluniosa” contra as mulheres, embora lhe questionasse com extremo cuidado, pois certamente imaginava que quem fala coisas como Nelson Rodrigues deve ser um tanto perturbado. E perguntou-lhe:

Mas, Sr Nelson Rodrigues, uma última pergunta. Dizem que o Sr teria feito uma afirmação sobre as mulheres, dizendo que “toda mulher gosta de apanhar”. É verdade que o Sr disse isso? O que o Sr tem a dizer a esse respeito? – disse a corajosa e trêmula jornalista.

Nelson Rodrigues ouviu-a em silêncio e após alguns instantes, diante das câmeras, com seu olhar fulminante e sua voz potente, rouca e grave, respondeu-lhe pronunciando as palavras vagarosamente, como era a sua maneira peculiar de falar, dizendo:

"Eu não disse que toda mulher gosta de apanhar..."

E Nelson Rodrigues fez uma longa pausa, na qual se percebia o alívio que a jovem jornalista demonstrou ao saber do próprio Nelson Rodrigues, ao vivo, esclarecendo de vez sobre aquela questão absurda. Mas, antes que ela retomasse a entrevista para o seu encerramento, Nelson Rodrigues completou, veementemente:

"Eu não disse que toda mulher gosta de apanhar... Só as normais".

Concordar ou não com a verdade é totalmente irrelevante e inócuo. Porque a verdade continuará verdadeira quer se concorde com ela, ou não. O dito popular que professa que “a verdade, às vezes, dói” ainda está distante da verdade porque a dor da verdade é, na realidade, muitas vezes insuportável. É exatamente por isso que a verdade não é persuasiva, pois dizê-la às pessoas só lhes causará sofrimento e a conseqüente rejeição que Nelson Rodrigues e tantas outras personalidades da história sofreram por proferi-la.

Portanto, aquele que pretender alcançar a verdade terá um triplo desafio.

O primeiro deles é aprender a saber pensar. E, concordem ou não com suas verdades, isso Nelson Rodrigues fazia muito bem.

O segundo é ter a coragem de enfrentar a dor insuportável da verdade e conseguir superá-la. E nesse desafio poder-se-á sucumbir. Portanto: cuidado!

O terceiro desafio é saber utilizar a verdade.

Se você chegar nessa fase entenderá que a verdade é péssima para convencer as pessoas. Se esse é o seu objetivo, o melhor é enganá-las.

Todavia, a verdade tem uma utilidade muito melhor que convencer. Isto porque, como a verdade é inexorável, ela é indestrutível para vencer.

Portanto, a regra é simples:

Quer persuadir e convencer? – empregue a mentira e o engano.

Quer vencer? – empregue a verdade.

Mas, é preciso saber como empregar a verdade porque a sua dor e conseqüente rejeição podem isolá-lo e vitimá-lo.

Quer prosseguir?

Então, aprenda que o emprego da verdade tem 4 níveis crescentes, proporcionais à sua veracidade avassaladora:

O primeiro deles é “a verdade que pode ser dita”. Esse é o nível que a maioria das pessoas (“unanimidade burra”) vive. Não se esqueça que toda a humanidade está aí, inclusive seus familiares e amigos. Portanto, não se iluda achando que as pessoas que você ama são menos “burras” por causa da condição pessoal que possuem contigo. Também não se engane achando que a verdade é contagiante e que eles vão se contaminar com a verdade, por seu intermédio. Ledo engano. Portanto, trate-os, igualmente, restritos a esse universo, ou você descobrirá a ira que seus amigos e familiares poderão nutrir por você. Isso porque esse primeiro nível só aceita as “verdades” (nem sempre tão verdadeiras), mas que são “politicamente corretas”, como por exemplo discursos em favor “do bem da humanidade”, “direitos humanos”, “preservação do meio ambiente”, “Deus existe”, “as religiões visam o amor e a paz universal”, “todos somos iguais”, etc. Os que mais se beneficiam desse nível são os políticos, religiosos, artistas e populistas.

O segundo nível é “a verdade que não deve ser dita”. Esse é o nível das verdades incômodas e inconvenientes. Você até poderá proferi-las, mas saiba que será rejeitado pelas pessoas porque elas não o julgarão pelo seu valor pessoal, mas pela conveniente similitude recíproca de suas idéias. Acredite, não vale à pena insistir com essas verdades. É pior. Contudo, há uma excelente e inteligente estratégia para manifestá-las, desde que você seja talentoso – o humor. Não é a toa que humoristas são inteligentíssimos em fazer a “unanimidade burra” rir das verdades incômodas e inconvenientes que não querem aceitar, como por exemplo que “casamentos não dão certo (inclusive o seu)”, que "a sociedade é corrupta”, que o “presidente é inculto e beberrão”, ou que “religiosos são pervertidos e pedófilos”. Só um aviso: "se você não for humorista, não se arrisque!"

O terceiro nível é “a verdade que não pode ser dita”. Cuidado! Esse é um nível perigoso em que você será mais que rejeitado - será retaliado. Exemplos não faltam para ilustrar, como o de Copérnico e Galileu Galilei que, dentre outros cientistas da sua época, cometeram o “pecado mortal” de afirmar que a terra não era o centro do universo. Tiveram que pedir perdão ao papa, dizendo que estavam bêbados, de pileque, ou sob efeito de algum alucinógeno e que rezariam 10.000 padres-nosso, para não serem execrados e mortos, queimados na fogueira do pecado, como outros foram. Outro exemplo atual é divulgação da organização Wikileaks de arquivos secretos de vários países e serviços secretos internacionais. Não se enganem, essa organização e seu presidente estão com os dias contados. Isso porque verdades desse nível comprometem altas instâncias de poder. Portanto, se você as tiver não deve proferi-las porque você se tornará alvo de morte. Todavia, também não deve temê-las. Ao contrário, elas te darão grande poder, desde que saiba usá-las. Contudo, se para saber usar as "verdades que não devem ser ditas" é necessário ter o talento de humoristas, o emprego das "verdades que não podem ser ditas" requer a expertise dos agentes secretos. Portanto, desista!

O quarto nível é “a verdade que não adianta ser dita”. Se você chegar a esse nível de verdade, entenderá porque deverá guardá-la exclusivamente para você. Será o seu maior segredo e nunca deverá ser revelado.

Afinal, porque você acha que a principal característica dos verdadeiros sábios é o silêncio?

 


 

 

 

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